3ª Sex Week – Sexo Pode Causar Dor de Cabeça?

A cefaleia associada à atividade sexual é relatada na história da medicina desde os tempos de Hipócrates, cerca de 400 anos antes de Cristo. Porém só foi documentada oficialmente na literatura médica em 1970, por Kritz. Hoje sabe-se que existem três etiologias principais para este tipo de dor de cabeça.

A primeira causa é a intensa contração muscular do pescoço, dos ombros e da face nos momentos que antecedem o orgasmo. A segunda seria a cefaleia sexual com componente vascular, na qual as alterações hemodinâmicas do sexo (aumento da pressão arterial, aumento da frequência cardíaca, aumento do consumo de oxigênio pelos músculos e direcionamento de um maior fluxo sanguíneo para a pelve) precipitariam uma vasoconstrição cerebral desencadeando a dor. E a terceira, mais rara, seria uma cefaleia por baixa pressão do líquido cefalorraquidiano.

Embora a dor de cabeça relacionada ao sexo seja benigna na maioria das vezes, é importante descartar hemorragia subaracnóidea. Principalmente em pacientes que procuram o pronto atendimento com queixa de cefaleia súbita após à atividade sexual e que nunca tiveram episódios semelhantes anteriormente. Deve-se solicitar TC de crânio sem contraste e caso a TC não mostre sangramentos e a dúvida persista, a punção do líquido cefalorraquidiano está indicada. Alta pressão do líquido é sugestiva de hemorragia subaracnóidea, baixa pressão explica a dor de cabeça por ser um de seus mecanismos precursores.

O conhecimento atual a respeito do tema leva os médicos a orientarem os pacientes a se absterem de sexo e de qualquer atividade física intensa por um período de quatro dias após o episódio de cefaleia, ou pelo menos até a crise cessar completamente. Entretanto, alguns pacientes acabam tendo problemas na vida sexual por quererem usar a abstinência prolongada como prevenção de novos episódios de crise.

O assunto carece de mais estudos. Até o momento existe relato na literatura de tentativas de tratamento da cefaleia relacionada ao sexo de componente vascular com o uso de propranolol, porém o efeito benéfico parece ter sido apenas nas primeiras semanas de uso do medicamento. É fundamental que pacientes que sofrem de dor de cabeça após o sexo façam um controle com um neurologista, para tentar encontrar alternativas de tratamentos que melhorem sua qualidade de vida.

Referências:

 

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Pronto-Atendimento: “Ame-o ou Deixe-o”

Olááá leitores!

Este semestre está FODA. Estou tendo pouco tempo para dormir, esses dias literalmente desidratei após um plantão e estou andando tão mal-humorada que está difícil me auto-suportar às vezes. Após um mês do início do estágio na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), este último final de semana foi o meu primeiro livre.

O internato de urgências e emergências na UPA é um verdadeiro treinamento militar disfarçado. Ao invés de fardas, trajamos jalecos. Temos que bater ponto, portanto nossa pontualidade é fiscalizada rigorosamente. Lidamos com vidas e com a constante pressão de “ter que saber o que fazer”. Afinal, faltam poucos meses para sermos de fato médicos. E então, teremos que decidir as condutas sozinhos.

Na Sala Vermelha a gente esquece de ir ao banheiro, de beber água e eu lembro que estou sem comer há 6-7 horas quando meu estômago dá uma reviravolta e reclama, com solavancos perceptíveis na minha parede abdominal.

Meu maior problema é a dificuldade de me desligar do estágio, no meu tempo livre. Parcialmente porque os grupos de whatsapp nunca param e eu sou moralmente proibida de ignorá-los, pois existem avisos importantes. Parcialmente porque eu fico revisando minhas condutas mentalmente, ou na expectativa se tal paciente melhorou, se fulano finalmente conseguiu vaga em hospital, etc…

Todos os dias eu leio um pouco sobre as doenças dos meus pacientes e reflito sobre o que foi feito. Penso se algo poderia ser feito diferente, se de outra forma teria sido melhor. Assim, vou aperfeiçoando e aprendendo. Todos os dias eu penso “hoje eu fui uma médica melhor do que eu fui ontem”. E assim vai a vida.

Vou tentar organizar melhor meu tempo para voltar a escrever mais por aqui. Abraços e voltarei em breve com novidades.

e6ab57fd-8a6a-43c2-870d-935790ddebbd.jpgCarolina no SAMU. 

Quais remédios tiram a eficácia do anticoncepcional?

Olááá leitoresss!

Estou sumida porque estou ocupadíssima este semestre. Minha nova escala está um verdadeiro “Deus nos acuda!”. Este texto eu prometi já faz um tempo, finalmente decidi escrever e postar hoje.

Eu adoro o tema “contracepção” e estou sempre falando sobre isso nas redes sociais. Quem me acompanha sabe que eu sou fã da tradicional #cartelinha e que eu super recomendo os anticoncepcionais orais (para quem pode e para quem dá certo com o método!).

Uma dúvida recorrente entre as mulheres que fazem uso de anticoncepcional oral é quais medicamentos podem tirar a sua eficácia. Primeiramente vou ressaltar que para o anticoncepcional funcionar bem, pontualidade é fundamental! Se você esquece de tomar, falha a cartela ou toma cada dia em um horário, abandone o uso e procure um método que funcione melhor para você!

Caso você tome direitinho, deve sempre ter em mente que o anticoncepcional é um remédio, e que todo remédio interage com outros remédios no nosso organismo. Então o que a gente faz? TODA vez que precisar tomar um remédio, consulte a parte de “interações medicamentosas” tanto desse remédio que você irá tomar quanto a bula do seu anticoncepcional. Veja se eles não anulam o efeito um do outro.

A lista de interações medicamentosas é ENORME, mas hoje eu vou destacar alguns de uso comum e que é FUNDAMENTAL saber que eles podem diminuir a eficácia do anticoncepcional e resultar em um problema chamado gravidez indesejada.  OBS: as informações a seguir foram retiradas da bula do DIANE (acetato de ciproterona + etinilestradiol) as interações podem variar de acordo com a combinação hormonal de cada anticoncepcional.

  • FLUCONAZOL (e outros antifúngicos): medicamento muito usado para tratar candidíase. Se precisar usar, lembre-se: ele pode diminuir a eficácia do anticoncepcional. Você pode continuar a cartela, mas lembre-se de usar camisinha até o final dela.
  • TOPIRAMATO: a maioria dos medicamentos usados no tratamento da epilepsia não devem ser usados junto com anticoncepcional, por tirarem sua eficácia. Mas quis ressaltar o topiramato porque ele também é usado para o tratamento de enxaqueca. Portanto, é bom que as pessoas se lembrem desta interação medicamentosa.
  • ALGUNS ANTIBIÓTICOS: a bula do Diane cita especificamente os antibióticos macrolídeos e a rifampicina. ALÔ turma que usa AZITROMICINA, cuidado para não engravidar!
  • SUCO DE TORONJA (GRAPEFRUIT): não tenho hábito de tomar isso, pra falar a verdade nem sei se é comum no Brasil. Mas fique chocada junto comigo, pois um suquinho pode resultar em falha do anticoncepcional e gravidez SIM. Consta na bula do Diane!

Esses foram os que eu achei mais importante comentar. Mas fica a dica, pegue a bula do seu anticoncepcional e leia TUDO tim-tim por tim-tim, sobretudo da parte de “interações medicamentosas”. Temos que pensar em tudo para evitar gravidez indesejada ❤ Abraços!

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Parada Cardiorrespiratória em: Um Fio de Vida se Esvaindo

A parada cardiorrespiratória é um momento crítico. A reanimação poderá impedir ou não o término da vida de um paciente que está à beira da morte. A parada é a última experiência na Terra de uma quantidade significativa de pacientes que param e não voltam, não podendo sequer se despedir do mundo.

Hoje eu presenciei pela primeira vez uma parada, e também ajudei na reanimação. Até então, minha experiência se limitava ao treinamento nos bonecos da faculdade. A equipe fez um trabalho impecável. Fiquei admirada com a sincronia de todos, empenhados em seguir o protocolo com perfeição.

Entretanto… o ciclo da vida é finito. E uma parada cardiorrespiratória em um paciente com seus 90 e tantos anos dificilmente será revertida. A equipe tenta segurar aquela vida no corpo, bombeando o coração com a massagem cardíaca e induzindo o paciente a respirar com a ventilação. Mas na verdade, lá no fundo, a gente sabe que a vida já está se esvaindo rapidamente do corpo… o que pode ser um caminho sem volta.

Será que o paciente sentiu o desconforto das compressões e das injeções de adrenalina que tentaram trazê-lo de volta? Ou será que durante a tentativa de reanimação sua alma já estava desapegada de seu corpinho debilitado e livre da fragilidade humana?

Morrer é esquisito demais. Quem me dera ter a sabedoria oriental para lidar com isso de uma forma melhor

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Fazer Sexo Menstruada Prejudica a Saúde?

Olááá leitoreeeeees!

Carol está na sua terceira semana de férias e este é o prazo suficiente para ela começar a sentir saudade dos livros, dos cadernos, da medicina… sendo assim, eu estava procurando artigos sobre sexualidade no PubMed – cada um com seus hobbies – e encontrei um daqueles artigos que nos surpreendem pelo simples fato de existir. Quando você pensa “ninguém deve ter estudado isso no mundo”, você geralmente se surpreende com o fato de que sim, isso já foi estudado e existem artigos publicados a respeito. O tema de hoje foi inspirado no artigo “A penetração vaginal é permitida durante a menstruação? – Uma abordagem bíblica e médica”.
(Link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6290188/ )

Fazer sexo durante a menstruação é proibido de acordo com uma passagem do Velho Testamento, na Bíblia. Segundo o trecho, “um homem e uma mulher que fazem sexo durante seu período menstrual, permanecem impuros por 7 dias”. Em tempos atuais,  os cristãos não vivem mais sob as leis do Velho Testamento, e consequentemente a religião exerce pouca influência para inibir a sexualidade se comparada aos tempos antigos. Mas, de acordo com o artigo citado, esta crença bíblica protegeu mulheres por mais de mil anos.

Sabe-se que o sexo durante o período menstrual aumenta o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis. Em um período da história no qual não existia camisinha, nem testes para doenças, nem tratamento, nem conhecimento de que elas existiam, a abstenção sexual durante a menstruação protegeu muito as mulheres de se contaminarem com uma infinidade de patógenos. Além disso, a restrição sexual neste período fez com que as mulheres tivessem relações mais próximas ao período fértil, aumentando as chances de engravidar e com bebês livres de DST’s.

Deixando a crença religiosa de lado e partindo para uma análise fundamentada em conhecimento científico atual, fazer sexo durante o período menstrual faz mal? Vou traduzir o que o artigo falou:

  • Sexo durante o período menstrual pode aumentar o fluxo. Isso porque o esperma leva à contração uterina, fazendo com que o endométrio seja expelido em maior quantidade e mais rapidamente.
  • Em mulheres com ciclo menstrual curto (20 – 22 dias), sexo durante a menstruação pode levar a gravidez indesejada, devido a quantidade de dias que os espermatozóides podem sobreviver no sistema reprodutor feminino e devido a abreviação da menstruação com a atividade sexual.
  • Por facilitar a transmissão de doenças sexuais, o sexo durante a menstruação facilita o contágio da mulher com clamídia e gonorreia, importantes causas de DIP (doença inflamatória pélvica).
  • Existem divergências na literatura e ainda não foi comprovado, mas alguns autores acreditam que o sexo durante a menstruação é fator de risco para o desenvolvimento de endometriose.
  • Para alguns casais, o sexo durante a menstruação afeta a libido. O homem pode ficar temporariamente impotente, ao ser inibido pelo cheiro da menstruação; e a mulher pode não sentir vontade de fazer sexo devido aos sintomas menstruais como dores de cabeça, cólicas, diminuição da pressão arterial e queda da temperatura corporal.

Atualmente o sexo durante o período menstrual é considerado algo normal, não é uma perversão. Não é certo ou errado, é uma decisão do casal e sobretudo da mulher com relação ao próprio corpo. Na vida corremos riscos o tempo todo, é importante ter consciência deles e fazer escolhas.

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E Se a Sensualidade Não Existisse?

Sexta-feira à noite. Hora de deixar todo o estresse da semana de lado e ir se divertir com seu par. Você, mulher, já tomou banho e vestiu uma roupa que valoriza seu corpo, além de investir em make e perfume. Decide surpreendê-lo (namorado, noivo, marido, cônjuge, etc) daqueeele jeito. Você então o empurra para sentar na cadeira e sobe em cima dele, se jogando em um beijo bastante caliente do qual ele com certeza não se esquecerá por alguns dias.

Neste instante, o mundo é seu. A excitação masculina com este tipo de comportamento é praticamente instantânea, e o poder exercido por sua sensualidade feminina está simplesmente no auge. Se você quer convencê-lo a fazer aquela viagem no fim de semana, receber um café da manhã na cama, ou ganhar a razão em qualquer discussão que tenha ocorrido durante o dia… é o seu momento.

Mas… e se a sensualidade não existisse?

E se pintar as unhas e os lábios de vermelho fosse completamente banalizado? E se as mulheres decidissem nunca mais se depilarem? E se as coleções de lingerie de renda preta fossem todas substituídas por calcinhas bege? E se as maquiagens sumissem das nossas necessaires? E se as saias, vestidos, shorts e blusas decotadas fossem 100% trocadas por calças e blusas largas?

Eu acho conforto uma coisa muito importante. E no dia a dia nossa vida é tão corrida, né? É claro que apostamos em roupas mais larguinhas para trabalhar. É comum que a boa e velha calcinha bege nos acompanhe nas jornadas, é compreensível que a gente saia de casa pela manhã sem make e que a depilação/unhas sejam deixadas de lado em momentos atarefados da nossa rotina. Mas NUNCA se preocupar com isso, querer “brigar” com o universo dizendo que “mulher não é obrigada a fazer nada”… tem suas consequências.

A aparência é fundamental na construção da imagem que passamos para os outros indivíduos na sociedade. Sendo assim, o cuidado com a aparência pelo menos às vezes é necessário para nos mantermos atraentes aos olhos do parceiro e consequentemente exerce grande impacto no relacionamento.

Você não precisa ser uma Beyoncé. É claro que beleza natural existe, que ter uns quilos a mais é normal e que as mulheres reais não se parecem com as atrizes da Globo. Mas meu ponto é: não será com axilas como da Bruna Linzmeyer que você será considerada sensual. E perder sensualidade é perder poder.

dakota.pngDakota Johnson exemplificando minha narrativa do primeiro parágrafo.
Fonte imagem: https://www.tumblr.com/tagged/jamie-dornan

Quatro Dias no Paraíso

Quatro Dias no Paraíso

Quando eu comecei o internato médico, tinha consciência de um fato: eu nunca havia ficado cara a cara com a morte. E tinha a intuição de que ao fazer um ano de estágio em um hospital com mil leitos, isso provavelmente iria acontecer.

Eu vi bebês prematuros nascerem e morrerem logo em seguida. Outras vezes deixei o hospital no fim da tarde e quando voltei pela manhã o paciente havia morrido durante a madrugada. Já cheguei no CTI e presenciei um paciente morto sendo embrulhado em lençóis. Entretanto, apesar de eu sempre considerar o encerramento de uma vida um momento triste, nenhuma dessas ocasiões causou um impacto significativo em mim.

Até que um dia eu me apeguei a uma paciente. Relativamente jovem. Eu fiz sua ficha de admissão no setor. Ela chegou andando, com bom humor, usava uma camisola preta longa para dormir. Foram meses de internação. Primeiro houve uma busca incessante por seu diagnóstico, da qual eu participei bastante. Depois veio o impacto do diagnóstico de um câncer raro e de mau prognóstico.

Eu a acompanhei durante toda a evolução da doença. Até que um dia, de repente (a morte chega sem avisar), eu procurei seu leito no hospital para visitá-la e não encontrei. Então, constatei seu óbito pelos registros no prontuário. A notícia foi difícil de digerir. As lágrimas, difíceis de conter. E foi assim que a morte deixou sua primeira marca em mim.

Hoje ela está há quatro dias no paraíso. E eu rezo para que Deus conforte o coração de seus entes queridos. E para que Ele me ajude a lidar melhor com a loucura que é ter consciência da efemeridade da vida.